Apesar de Você: o dia seguinte que insiste em nascer
- brunotfocamargo
- 8 de dez. de 2025
- 2 min de leitura
Algumas obras atravessam o tempo porque falam diretamente ao que somos. A música “Apesar de Você”, de Chico Buarque, é uma dessas cartografias afetivas que insistem em nos lembrar de algo simples e profundo: mesmo quando um dia parece não ter fim, o amanhã continua chegando. O canto do galo, a água brotando, o amor que resiste ao silêncio são convites poéticos para reconhecer que existe um movimento interno da vida que ninguém consegue deter.
No consultório, especialmente trabalhando com TCC, gerontologia e cuidados paliativos, vejo o impacto desse lembrete na prática. Há períodos em que a dor ocupa todos os espaços, e as decisões difíceis parecem pesar mais do que somos capazes de carregar. Nessas horas, nossa mente produz narrativas rígidas: nada vai mudar, isso não vai passar, não tenho saída. Esses pensamentos, embora compreensíveis, costumam ser mais duros do que a realidade.
E é justamente aqui que a música conversa com a psicologia. Assim como o “grito contido” que um dia se liberta na letra de Chico, nossas emoções também se transformam quando damos a elas espaço, tempo e significado. Mesmo nos contextos mais delicados, como o envelhecimento, as perdas sucessivas ou o enfrentamento de uma doença grave, há sempre algum tipo de movimento acontecendo. Às vezes é discreto, quase imperceptível, mas está lá: uma conversa que aproxima, uma lembrança que reconforta, um breve momento de paz, uma esperança que renasce devagar.
A vida tem essa capacidade silenciosa de brotar nas frestas. E quando conseguimos observar com mais gentileza nossos pensamentos e emoções, percebemos que aquela ideia de permanência da dor não se sustenta. A TCC nos ajuda a construir esse olhar mais flexível e realista, permitindo que o sofrimento seja acolhido, mas não absoluto. Permite que a vida, mesmo ferida, continue a se reorganizar.
Talvez essa seja a principal mensagem: o amanhã não precisa ser grandioso para ser transformador. Ele só precisa chegar. E ele sempre chega. Com novas luzes, novas possibilidades e um sopro de renovação que insiste em passar onde antes parecia não haver nada.
Porque, apesar de você, apesar de mim, apesar dos medos e dos dias difíceis, o amanhã sempre insiste em nascer. E isso, por si só, já é um ato de esperança.

Comentários